Archive for Setúbal

Maioria Absoluta? Não Obrigado

// 6 Outubro, 2009 // 1 Comment » // Setúbal

As últimas sondagens feitas no Concelho de Setúbal perspectivam a hipótese de a CDU obter a maioria absoluta no executivo camarário.

A única possibilidade de tal não acontecer será com a eleição de um vereador do Bloco de Esquerda.

Todos sabemos o que significa uma maioria absoluta.

Sentimo-la na pele com a governação do PS.

Ela significa o poder incontrolado e incontrolável dos executivos que fazem, desfazem, negoceiam, impõem, sem que qualquer oposição possa fazer seja o que for, mesmo quando as decisões tomadas são obviamente inaceitáveis e contrárias ao interesse de todos nós.

Basta olharmos o núcleo apoiante de Maria das Dores Meira, para percebermos que aí se encontram representadas todas as elites dos interesses e negócios.

Dar a maioria ao actual executivo é permitir a venda de lotes na frente ribeirinha;

É permitir a continuação da falta de perspectivas para a cidade;

É ser cúmplice no silêncio que o executivo assumiu face ao escândalo do preço dos bilhetes para Tróia;

É continuar com a privatização dos serviços públicos;

É fechar os olhos ao abandono do centro Histórico;

É prosseguir a política de guetização dos bairros suburbanos.

Por isso o voto no Bloco é o verdadeiro voto útil nas eleições de 11 de Outubro.

Albérico Afonso

A um Deus desconhecido

// 8 Agosto, 2009 // No Comments » // Setúbal

“Portucale” é o nome do complexo turístico em nome do qual, em 2005, um mês antes do governo de Santana Lopes ter ido à vida, foram abatidos 2605 sobreiros.
Em Setúbal, um megalómano projecto urbanístico que mete futebol e estádios, também mete sobreiros. Diz que são setecentos.
Os sobreiros são árvores meridionais, sólidas e dignas, cobertas por um tecido vegetal protector que lhes empresta uma tranquilidade rugosa no silêncio das planícies.
Os sobreiros são deuses aprumados com muitos braços e raízes possantes, fios condutores de diálogos telúricos que se ouvem nas profundezas do sul.
E são dádivas que abraçam a terra, torres de ternura e vida nas sombras prodigiosas que não regateiam.
São árvores solidárias que respiram paz e se entregam gratas e totais, numa barafunda de afectos, à natureza que num dia feliz as concebeu e arquitectou.
Os sobreiros são textos poéticos que o planeta escreveu. Confidenciam segredos com as estrelas, que cúmplices os borrifam de luz. São íntimos do Sol, do nevoeiro e das chuvas que os alimentam em bênções de prazer. Até o vento que lhes despenteia a copa encrespada olha para eles num alvoroço de sorrisos.
Com a frieza dos executores abaterem-se 2605 árvores destas, no preciso ano de 2005. Perspectiva-se o abate de mais sete centenas, em Setúbal, para a concretização de um projecto aprovado nos últimos dias do Governo de Guterres.
Há sempre um tom meio obsceno de negociata pesada quando falamos no extermínio destas árvores. Um tom de últimos dias inadiáveis e urgentes para a aprovação de projectos fruto de ajustes patrícios e muitos euros.
Dizem-nos que tudo é feito em nome do desenvolvimento e que este miserável aniquilamento das árvores é realizado para o bem de todos nós.
O que é que andamos a fazer com este mundo?

Alice Brito

Até ver

// 3 Agosto, 2009 // No Comments » // Setúbal

Na memória difusa desta cidade, de alma calejada por muitas e variadas malfeitorias, há um espaço de alegres afectos, espaço eleito, traçado a preceito pelo instinto do lazer – a praia.
Gerações sucessivas das suas gentes, durante os meses de muito verão, se encaminharam determinadas para os areais de sol de que a cidade era proprietária legítima.

Muita praia tem Setúbal a rendilhar-lhe a orla marítima em bilros líquidos e sedosos, desde a Arrábida, onde um mar de memórias esmeraldas descansa íntimo da serra, até à Figueirinha, cais onde atracam autocarros empanturrados de criançada de chapéu e balde, para não falar de Albarquel, ali à mão de semear, a dispensar transportes. E tantas outras. Galapos, Galapinhos, a Praia dos Coelhos, sucessões felizes de areia luminosa a deixar-se pisar pelos pés descalços dos habitantes da cidade.
Finalmente, Tróia, a península.
Quilométrica língua de areal branco, praia-pátria da cidade, tem entre si e Setúbal uma fronteira salgada e sadina, como se fosse uma passadeira tingida de azul.
Mal a primavera começa a arregaçar as mangas, a cidade inicia um olhar impaciente na espera desejosa de travessia.
Quando o calor finalmente entra nas casas e nos corpos e o Verão se abre em dias intermináveis num alvoroço de luz, a cidade encaminha-se solta, densa e convicta para os barcos, no propósito definitivo e formal de tomar posse da sua praia.
Às vezes só de manhã, às vezes só de tarde, e outras até muito tarde, a cidade desaperta-se, destapa-se e molha-se e passeia-se nas planícies de silêncio arenoso, aqui e ali pontuadas por dunas que o trabalho do vento vai arrimando.
De vez em quando, naquelas alturas em que o rio preguiça e se espreguiça em ondas suaves, já tarde, com o sol num braço de ferro com a noite, em galhardias de causas perdidas, a cidade de férias regressa a casa, cansada, salgada e faminta, o prazer cumprido, a coragem renovada.

Sempre foi assim, mas é legítimo questionar se sempre assim será.

A Atlantic Ferries é agora, e durante os próximos quinze anos, a concessionária das ligações fluviais entre Setúbal e Tróia.
Os novos ferries, que começaram a galgar o rio no início do mês de Julho, custam quase o dobro.
Garantem-nos que os velhos barcos continuarão a travessia só para passageiros, com o mesmo preço, pelo menos até ao fim deste ano.
Mas em 2005, Carlos Beato, Presidente da Câmara de Grândola, tinha também garantido que as tarifas das novas embarcações “ mais modernas e mais apelativas” seriam “ praticamente as mesmas”.
Sabe-se que há penhoras sobre os ferries que até agora trabalharam. Sabe-se que há catamarãs na forja. A que preço?

Há muitas formas, explícitas e implícitas, de interditar um espaço a uma população.
Se as tarifas de todos os barcos duplicarem no futuro, Tróia, aquela língua de areia, ali mesmo ao alcance dos olhos e das mãos, passará a ser um território tão distante como qualquer outra estância balnear naqueles paraísos improváveis, que a publicidade nos vende, longínquos e inacessíveis.
Dizem-nos que todos lucraremos com os investimentos em Tróia. Na habitual linguagem mansa dos negócios, zumbido de vespa antes do ataque, garantem-nos a continuidade do acesso àquela praia para toda a população.
Até ver.

Alice Brito

O Convento de Jesus ou a aflição de Mestre Boitaca

// 29 Julho, 2009 // No Comments » // Setúbal

Por volta de 1490, Diogo Boitaca, chegou desenfreado a Setúbal numa urgência febril de construção.
A vila de Setúbal olhou envaidecida e fascinada o Convento que ia crescendo, sóbrio e honesto, jóia edificada a enunciar as primeiras frases da gramática do Manuelino.
Com o permanente entusiasmo dos criadores e mestres de ofícios nobres, Boitaca acompanhava serpenteante o crescimento da 1ª igreja salão construída em Portugal. Seguir-se-iam imparáveis outras obras, os Jerónimos, a Sé da Guarda, a Igreja de Stª Cruz em Coimbra e mais tarde o Mosteiro da Batalha.
O Convento de Jesus colar-se-lhe-ia, contudo, à pele das recordações mais felizes com as suas magníficas colunas torsas e o cordame das naus descobridoras bordado na pedra, a anunciar os feitos régios.
Quinhentos anos mais tarde, o Convento de Jesus, a obra que fazia Boitaca sorrir, morre aos poucos nesta cidade esquecida, que assiste magoada ao estertor do seu Convento.
Os poderes desdobram-se em intenções e declarações de princípio; outorgam-se protocolos e acordos; fazem-se juras de amor à obra do artista; asseguram-se soluções milagrosas que porão fim ao desnorte assassino desta memória de pedra.
Câmara, IPPAR, Ministério da Cultura sacodem entre si as responsabilidades pelo descalabro a que se chegou.
A cidade vai assistindo a tudo isto e impotente percorre o itinerário possível do abaixo assinado, do movimento cívico, da intervenção pública, numa denúncia alarmada sobre o estado do monumento; a cidade cumpre o seu destino que nos dias de maior desesperança parece idêntico ao do convento.
Noticiam-se agora trabalhos arqueológicos.
Contudo, há dias, a imprensa local publicitava que o tecto de uma das salas havia ruído.
Especialistas consagrados advertem que pode ser já tarde de mais.

Quem não cuida do passado põe em risco o futuro.
A memória não deve ser pisada, nem condenada nem traída. A defesa quotidiana da sua sobrevivência faz parte da cidadania.
Este Convento de Jesus faz parte da intimidade que a História sempre teve com este espaço onde vivemos, agora marginado a betão e muralhado de prédios altos.
Essa História, essa memória, está no Rio abundante que a natureza nos adjudicou, e que nós poluímos, está na serra que se nos oferece generosa e que nós deixamos dinamitar e transformar em cimento, está no património construído que deixamos destruir.
É nessa memória que se contem o futuro de cada cidade, sendo que as cidades são uma outra dimensão das coisas e sentires.
Foi nas cidades que os homens e as mulheres se aprimoraram para crescer. Crescer no pensamento, na estatura, crescer na vida.
As civilizações devem tudo às cidades que não são meras testemunhas presenciais e silenciosas da História. São suas cúmplices e por isso algumas ostentam cicatrizes bem visíveis de conflitos, de actos de amor e desamor a que cederam o palco e a alma.
O Convento de Jesus é uma síntese de tudo o que se podia sonhar, pensar, construir e sentir nos anos de aventura dos descobrimentos.
Hoje está em risco.
Quem olhar para ele, com os olhos que só o coração empresta, verificará que de tão abandonado parece já indiferente à sua própria tragédia.
A urgência do artista Diogo Boitaca, uma urgência de construção, deu lugar à mais profunda demissão da sobrevivência. Há poucos dias caiu um tecto de uma das salas.

Alice Brito
Advogada

Serra Urgente

// 27 Julho, 2009 // 1 Comment » // Setúbal

Como um semáforo viciado, o Governo de Sócrates deu luz verde à Sécil para continuar com as pedreiras na Serra da Arrábida, eternizando-se assim o massacre explícito da riquíssima massa arrabidina.
Deste modo, Sócrates, o ambientalista, pensa que a Serra não foi ainda suficientemente acanalhada pela Sécil e pela voracidade das pedreiras que todos os dias a dinamitam e ensacam.
Este governo consegue combinar com um profissionalismo inquietante, a arrogância do poder e a sobranceria áspera da má-consciência.
O que a exploração das pedreiras ao longo de décadas penosas tem feito à Arrábida, integra um saque sistemático e despudorado de um património natural único.
Um saque industrial, absurdo, atentatório das bases mínimas de um desenvolvimento sustentável, a pirataria e a bandidagem autorizadas do presente, a comprometer sombriamente o futuro.
A cumplicidade arrepiante dos sucessivos governos, e sobretudo deste específico desgoverno Socrático, face à sordidez exploratória de uma indústria ávida e insaciável, a ausência de remorso, de náusea, perante um crime ambiental cometido às escâncaras, ficarão inscritas e integrarão uma das páginas mais vergonhosas da arqueologia de todos os poderes.

A Serra da Arrábida.
Aí se albergam espécimes únicos, fauna e flora a precaverem-se da extinção;
Aí se ouve a estridência do piar de aves raras, ecos de um mundo desconhecido e improvável; aí se pressente o telepático som do silêncio que anuncia o vagido da serra ferida.
Lá dentro se abrigam os bichos para os partos, fruto de amores soltos que a vegetação encobre não por pudor, mas por intimidade.
Serra sábia, esta que contém em cada arriba toneladas de história geológica planetária.
Serra gretada e infeliz, serra vítima de contratos, negócios, acordos, cláusulas, vertigens de lucro a escavar o côncavo dos montes.
Serra Deusa, dádiva de magma sólido que confiou no planeta, firmando-se em contrafortes generosos e leais.
Serra fêmea de dorso verde, a desinquietar corações.

Dizem as fadas que cada vez mais, nas sombras do entardecer ou nas primeiras horas da manhã se intui o sentir telúrico da serra atormentada e intranquila, face à demência senil das pedreiras predadoras.
Falta cimento à nossa estrutura cidadã.

Alice Brito

A visita oficial de Pôncio Pilatos ao Castelo de S. Filipe

// 19 Julho, 2009 // No Comments » // Setúbal

No preciso ano de 1582, Filipe I de Portugal e II de Espanha está em Setúbal.
Tem 55 anos e uma vastíssima cultura.
Estudou Humanidades, Ciências e Belas Artes; falava o Português, o Latim, o Francês e o Italiano com a perfeição e o treino dos poliglotas esforçados. Entre os seus principais afectos estavam a arquitectura e a música.
Filipe I compreendeu a necessidade da edificação de uma fortaleza, donde o olhar do Estado pudesse debruçar-se sobre a cidade e sobre o estuário do seu rio magnífico e azul, uma porta aberta a facilitar entradas.
Filipe I – O Prudente – assistiu em pessoa ao lançamento da primeira pedra da Fortaleza de S. Filipe.
Tinha contratado Filippo Terzi, arquitecto e engenheiro militar Italiano, que lhe havia proposto uma construção poligonal irregular, em forma de estrela de seis pontas, cada uma com o seu baluarte e guarita prismática.
A construção a edificar seria cercada por um fosso, também ele prudente, a evitar assaltos imprevistos.
O arquitecto Terzi não viverá o suficiente para ver o seu projecto concluído.
Em 1600, data da finalização, será Leonardo Torriani que estará presente a colher os louros e os sorrisos oficiais das inaugurações.
O Castelo de S. Filipe. Peça de pedra edificada sobre massa arrabidina.
Gerações de namorados entraram nele por uma escadaria larga e solene marcada por uma subida mansa e confortável, que degraus com 2 lances propiciam.
É daquela fortaleza que melhor se vê o corpo urbano da mal amada cidade de Setúbal, um corpo abraçado ao rio que o aconchega, naquela intimidade dos amantes que se conhecem e reconhecem e entrelaçam em dádivas que o tempo vai aprofundando.
Dali se olha com um arrepio o nevoeiro a tapar o horizonte, um tule gelado a emprestar mistério ao volume citadino que apenas se pressente.
É neste castelo que se avista a cidade no seu todo, que de industrial, operária e laboriosa, passa de repente a aristocrática e altiva, dada a imponência da paisagem que desentorpece os olhos e alivia tensões, apazigua ansiedades e concede perdões.
Está doente o Castelo de S. Filipe.
Um relatório recente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) alertava para o perigo de derrocada da fortaleza, sublinhando o risco de poder haver perdas de vidas humanas, em caso de sismo, ainda que leve, ou de chuvas intensas e prolongadas.
O LNEC propunha “obras de estabilização da encosta no mais curto espaço de tempo possível”, defendendo ainda “o escoramento das estruturas em risco de colapso e a melhoria de drenagem das águas pluviais”.
Oficial e institucionalmente notificado da situação dramática daquele lindíssimo pedaço de História e Memória, o Ministério do Ambiente, munido de um comboio de legislação, lavou as mãos, endossando todas as responsabilidades ao Ministério da Cultura.
A Fortaleza encurralada na sua falta de chão, um chão que se esgueira já dorido por mais de quatro séculos de sustentação, olha-se assustada, alquebrada e infeliz, relembrando os dias felizes em que emanava poder, sentindo-se agora desautorizada e pior que isso condenada na ameaça que se contém no silêncio dos Ministérios.
Rachas profundas instalam-se nas pedras antigas forradas de musgo, como vírgulas indevidas que tiram o sentido a frases escorreitas.
A Fortaleza está em perigo. Que ninguém diga que não sabia, se a tragédia lhe bater à porta.

Alice Brito
Advogada

Como se faz um subúrbio

// 14 Julho, 2009 // 2 Comments » // Setúbal

Esta cidade tinha sido concebida, arquitectada, pressentida e sonhada, para olhar para o rio, assim de frente.
A cidade queria mostrar o rio aos seus habitantes sem pudores nem medos, oferecendo-o intacto e sólido aos que nela habitavam ou a visitavam ainda que precariamente.
A cidade queria ser amada, respeitada, olhada com verticalidade e oferecer-se liquefeita na mansidão sedosa do seu rio a que um portentoso estuário dava um aval de nobreza autêntica.
Rejeitava, portanto, liminarmente, a indignidade de um olhar ambíguo, oblíquo, feito à sorrelfa por entre prédios que numa cordilheira de cimento frio lhe tapassem o que de melhor tinha para uma oferta vibrante e esmerada.
Tinha sido aliás do mar e daquele rio, que num conluio feliz a contornavam, que há muitos séculos atrás, tinha visto legitimada a sua existência.
Dali lhe tinha vindo o sal, que alimentava um comércio denso, dali lhe vinha o cheiro a maresia e o tempo atmosférico, que os ossos das gentes acusavam como barómetros sensíveis e exactos.
Dali lhe vinha o alimento primordial das bocas e das fábricas conserveiras, fábricas predadoras do trabalho das mulheres e crianças, feito muitas vezes a desoras, a encher latas e os bolsos vorazes dos industriais.
A cidade tinha nesses anos de miséria explícita uma genuína rebeldia crónica e era proprietária de uma esperança feroz em dias melhores.
A cidade olhava a sua baía perfeita, alicerçada no baixo ventre da serra e apesar do miserável calendário dos dias flácidos que lhe eram impostos, reencontrava-se segura na certeza de habitar um espaço único.
No verão a cidade encaminhava-se para as praias, determinada como a infantaria de um exército, a fruir aquilo que era seu.
Tinha ainda um outro mar – um oceano de laranjais carregadinhos de frutos luminosos e sumarentos. Eram laranjas esplêndidas, gordas, doces, um regozijo para a boca. Até as cascas se aproveitavam para cristalizar. Eram laranjas totais.
Aos Domingos a cidade saía à rua e passava na avenida larga, dona de três cinemas, laboratórios de sonhos.
Na Praça do poeta, cafés e esplanadas albergavam momentos de ócio, cumplicidades e tertúlias.
Articulava-se, apesar dos inúmeros males de que sofria, com a destreza de quem não tem um corpo desmesurado, sem zonas de desamparo votadas à sua sorte.
Onde está esta cidade?
Quem concebeu, construiu e licenciou os prédios sem graça e sem viço que entaipam o rio deve ter pensado, certamente, que o mar estava no sítio errado e assim sendo devia sofrer as consequências desse equívoco. Colocado nos bastidores da cidade, o Sado parece olhar-nos magoado com a asneirada urbanística que aqueles edifícios sem alma nem dignidade encerram.
A mágoa segue certeira o seu percurso doloroso, quando se chega ao estuário, local de vilipêndio e tortura de espécies raras.
Na serra propõe-se a coincineração, em nome, pasme-se, da saúde ambiental.
Sucessivas urbanizações lúgubres e trágicas, desarticulam, desequilibram, e violentam a harmonia da cidade, que se transformou num somatório de prédios mal construídos, mal vividos, as fachadas infiltradas de velhice, abandono e humidades infames, sem árvores, sem verde e sem juízo.
O centro histórico desabitado e estático impregna-se de um silêncio temeroso e pontual quando se encerra a última loja. Consta que nem os fantasmas o frequentam à noite, preferindo anichar-se noutras geografias.
A cidade não cuida dos seus monumentos que como páginas de um livro velho se vão esboroando, mas em contrapartida edifica desatinos estéticos supostamente modernos que ferem o olhar.
Não se apercebeu ainda a cidade que perdeu as praias. Quando o verão chegar falar-se-á seguramente da fúria clamorosa da população privada de Tróia, com acesso condicionado à Figueirinha, sendo que Albarquel agora infrequentável pode mais uma vez estar poluída.
As sucessivas câmaras, que a papel químico vão construindo o desnorte, têm a maior responsabilidade na transformação desta magnífica cidade em subúrbio desastroso.
Uma cidade não é um sítio. Uma cidade é um corpo vivo que quer ser cuidado, tratado, alimentado e educado.
Uma cidade não é um sítio. É geografia, é história, geometria, cultura e memória. Uma cidade é afecto, sentimento e emoção.

Alice Brito
Advogada

Desabafo de um setubalense

// 11 Julho, 2009 // No Comments » // Setúbal

Aqueles vases da merrda gamárrem a Trrróia àgente, pá soçe!

Ê quérr masé sabêrr aonde é que a maltinha vá masé agórra pá prráia?

Agórra um gaje quérr irr ali à cáldêrra da trróia amandarr um merrglhinhe ou irr cmer uns plins frrites pá bola de nívea ó dminge á tárrde e se na fôrr a rémes do bote ó fazerr uma vaquinha pa pagarr a gasosa ó patrrão do gazeline, tá fedid. (mais…)

As Cidades

// 9 Julho, 2009 // No Comments » // Setúbal

As cidades aceitam-se ou rejeitam-se, amam-se ou suportam-se, renegam-se ou defendem-se.
As cidades são gostos e desgostos, amores e encontros, bulícios e desertos.
Há cidades com magníficos crepúsculos e amanheceres monótonos e ensonados na repetição dos gestos, normas e manias.
As cidades são como as pessoas.
Há cidades simpáticas e empáticas, sorridentes e irrequietas, luminosas e sombrias.
Há cidades nervosas na intimidade das ruas que se ramificam como veias. Há cidades aprumadas e arranjadas, dignas e autênticas. Há cidades sábias, experientes e maduras e há outras vencidas e inseguras. Há cidades derrotadas nos combates que ficaram por travar. (mais…)